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30/10/2017

Há 90 anos, Saint-Exupéry estava em Cabo Juby

“A vastidão é para o espírito e não para os olhos.”
(A. de Saint-Exupéry, Piloto de Guerra – 1942).

Regiões longínquas cobertas de areias e de noites estreladas: o deserto. Em contraste com as fervilhantes metrópoles, ali está um vasto território real onde se projetam inusitados sonhos e as miragens mais improváveis, como aquela universalmente conhecida de um menino loiro usando um manto de príncipe e solicitando a um piloto perdido que lhe desenhasse um carneirinho… Pois essa miragem narrada no início do livro O Pequeno Príncipe (1943), de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), surgiu mesmo no deserto e é também, poucos suspeitam, a de um piloto que fazia parte do quadro de funcionários das empresas de correio aéreo de Latécoère, na França.

Assim, o piloto que se vê embaraçado ao ter de desenhar um carneirinho para uma “aparição” vive em duas histórias: na do personagem em pane “a mil milhas de qualquer terra habitada”, e na de sua profissão, que o levou a viver por dezoito meses no Saara e lhe inspirou o conto mais famoso da literatura contemporânea.

Empregado como piloto nas linhas de Pierre-Georges Latécoère desde 1926, Saint-Exupéry foi designado em 1927 para a então “aéroplace” de Cabo Juby, isto é, uma escala da linha numa região remota na costa africana por onde passavam semanalmente os aviões da empresa. E eram tempos em que o avião não passava de uma “engenhoca voadora” de cabine aberta, sem autonomia para longas distâncias.

Visando entregar cartas às então colônias francesas no norte da África e num futuro próximo chegar à América do Sul, Latécoère instalou suas escalas de abastecimento da Espanha até Dacar nos anos 1920. Naturalmente, atravessava-se o Saara. Num regime quase militar, orientados pelo chefe Didier Daurat em Toulouse, os pilotos transportavam o correio.

Impossível, entretanto, evitar panes e acidentes quando nem mesmo a transmissão por rádio estava completamente assegurada. Mas panes não eram o maior dos problemas naquela área. A árida região se tornara um caldeirão de conflitos por conta da invasão europeia. Espanhóis e franceses haviam se apoderado do Marrocos, tendo-o sob seu “protetorado”, sem perguntar a opinião dos habitantes mouros… O resultado é que algumas tribos nômades se mostravam arredias e violentas contra esses estrangeiros e atacavam frequentemente os aviões que ali pousavam ou, pior, sequestravam e até matavam seus pilotos. Foi então que Daurat, percebendo a vocação diplomática de Antoine de Saint-Exupéry, o enviou a Cabo Juby.

Durante os 18 meses de sua permanência no deserto, Saint-Ex, como era chamado pelos colegas, aprendeu o árabe e se tornou uma espécie de “marabuto branco” entre as tribos que vinham consultá-lo sobre suas questões. Além disso, ele salvou colegas em pane e sequestrados e resgatou aviões, muitas vezes transportando motores ou peças em lombo de camelos. Mas ele viveu solitário a ponto de escrever à sua mãe que levava uma “vida de monge”. Um navio fazia o abastecimento da escala uma vez por mês e aviões da linha cruzavam indo ou vindo. Nesse cenário e nessas condições despontará o escritor que ele ensaiava ser: avançava sob sua pena a redação de Correio Sul, publicado em 1929, no qual sua aventura se torna tema e universaliza a profissão de piloto. Aflorava uma carreira que resultou em seis obras, sendo a última O Pequeno Príncipe (1943), além de Cidadela, inacabada e publicada postumamente.

Noventa anos após a vivência do piloto-escritor no deserto, pouco se alterou da paisagem de sua “gestação” literária. Para captar-se um pouco do que o lugar possa ter suscitado num espírito como o de Saint-Exupéry, convém um exercício semelhante ao do pequeno príncipe que, insatisfeito com as representações de carneiros que lhe fez o piloto, prefere finalmente o de uma caixa dentro da qual este supostamente estava. Através dos buraquinhos, o menino consegue “ver” o carneiro. Quem põe os pés na Tarfaya de hoje também pode enxergá-la com a imaginação.

Independente desde 1975, Tarfaya fica ao norte da região homônima do que um dia foi o Saara de dominação espanhola. O antigo Cabo Juby, escala dos franceses, se situava ao lado do forte espanhol, que subsiste e é zona militar marroquina. Antes, no século XIX, os ingleses haviam feito um balcão para as trocas comercias, a Casa del Mar, ainda de pé. Não há nesta pequena comuna de 8.000 habitantes construções que possam se sobrepor totalmente ao passado. Este, por sua vez, não é feito de ruínas, mas de “vestígios vivos” que permitem imaginar os aviões da Latécoère pousados na areia, os pilotos pioneiros da década de 1920, vez por outra ali reunidos, jovens e jocosos, cozinhando de forma rudimentar, fundando sua camaradagem de cavaleiros do céu.

O pouso hoje em Tarfaya é muito parecido com os da antiga Latécoère: aviões de pequeno porte, capazes de aterrissar na areia sobre pistas improvisadas. É o que fazem duas duas associações francesas, a do Rallye Toulouse-Saint- Louis e a do Raid Latécoère-Aéropostale. Ambas partem da antiga sede da Linha, a cidade francesa de Toulouse. Ambas percorrem os céus e a costa da África após passar pela Espanha. E celebram a memória dos companheiros de profissão enquanto promovem ações culturais e históricas. Quem tiver a oportunidade de participar saberá que, ao descer no deserto, tudo parece pausar, depois se ampliar indefinidamente entre realidade e miragens. Na cena, é possível entrever Saint-Exupéry, chefe daquela escala, andando pela praia, escrevendo noite adentro à luz de lampiões.

De Santa Catarina a Tarfaya

A convite do Raid Latécoère-Aéropostale 2017, a presidente da AMAB, Associação Memória da Aéropostale no Brasil com sede em Florianópolis, Mônica Cristina Corrêa, participou de 17 a 22 de setembro de uma aterrissagem em Tarfaya. A visita celebrou, com 35 pequenos aviões, os 90 anos de Saint-Exupéry na região e os 100 anos das empresas Latécoère.

Além do forte espanhol e dos vestígios da escala de Cabo Juby, pilotos e delegações estiveram em dois pequenos e singelos museus: o Museu Berbere, que mostra a herança dos povos nômades do deserto, assentados há apenas 35 anos; e o Museu Antoine de Saint-Exupéry, que recebeu da AMAB a edição em português do Pequeno Príncipe da Companhia das Letras, obra traduzida em 2015.

Recebidos pelo Governador da Província de Tarfaya, os 90 integrantes do Raid Latécoère inauguraram o “Banco da Liberdade”, fruto de um projeto que o Raid Latécoère-Aéropostale se incumbiu de apoiar, assim como a Fondation Antoine de Saint-Exupéry. Trata-se da inserção de um banco público em formato de livro, com selo e reconhecimento da UNESCO, nas principais cidades-escalas como forma de reuni-las sob da história da Linha.
Como uma antiga etapa, Florianópolis está cotada para receber um exemplar do banco em 2018, por ocasião do evento “Encontro das cidades-escalas”, que a cidade sediará de 25 a 27 de abril do mesmo ano.

Do deserto ao Campeche

Quando Antoine de Saint-Exupéry deixou o deserto em 1928, ele logo foi designado como chefe da “Aeroposta Argentina”, afiliada da Aéropostale, em Buenos Aires. Não é difícil imaginar o impacto de tamanha mudança. Todavia, como chefe, o piloto arrumava todos os pretextos para conduzir pessoalmente o correio no sul do continente americano. Ele prolongou a linha para a Patagônia e andou pelas escalas brasileiras da empresa até o Rio de Janeiro. No caminho, estava a longa e desértica praia do Campeche, que se estende às dunas da praia da Joaquina. Entre 1929 e 1930, época em que Saint-Exupéry esteve no Brasil, essas paisagens desabitadas deviam se constituir num alívio ao frenesi da capital argentina. O piloto deve ter-se lembrado de seu amado deserto pois, como na costa catarinense, o litoral africano
é semeado de ranchos de pescadores, os ditos “champs de pêche”. Hoje, tanto aqui quanto lá, grande parte da memória da Linha se deve ao testemunho desses homens humildes. Como expressou Saint-Exupéry em Voo Noturno (1931): “há em toda multidão homens que não distinguimos e são prodigiosos mensageiros. E eles nem sabem disso”.

Por Mônica Cristina Corrêa.